quinta-feira, 1 de março de 2012

Ceciliar

Os amores de Cecília são platônicos. Aos doze anos, Cecília se apaixonara por um rapaz mais ou menos da sua idade, não sabe ao certo quantos anos ele tinha... mas acreditava que ele era um pouco mais novo. Conhecera em um encontro dos amigos de seus pais, em viagem à uma cidade interiorana e, mais especificamente, à um local pequeno cujos morros e pastagens lembravam novela de época. Sabe aquela casinha, com leite tirado da hora e queijo feito por lá mesmo, com vendinha na frente? Era esse o lugar em que Cecília foi parar e justamente em uma das noites mais quentes do ano: a noite de São João. Havia fogos, forró, fogueira, noite enluarada e céu estrelado [tão estrelado que era impossível contar as estrelas]. Em pequenas aventuras, ela, o rapaz e mais alguns saíam pelas proximidades dizendo desvendar os lugares ali por perto. Ingenuidade e meninice, isso que era. Foi então, nesses momentos de diversão e  sinceridades compartilhadas, que Cecília descobriu-se apaixonada por esse rapaz que tão gentilmente a tratava. No dia de irem embora, ela tragicamente ficara menstruada e mal conseguira despedir-se dele. Tivera vergonha, o short sujara e as palavras foram poucas, quase mudas. Depois desse dia, passara um ano com lembranças e saudades apertadas. Até que um ano depois, voltaram para aquela cidadezinha onde o conhecera. Lá, o viu e pensara que ele a havia rejeitado, aquilo a pegou de jeito e desestruturara uma pessoa que estava aprendendo a amar. Pouco depois, ele entrou em outro cômodo da casa onde ela estava e, então, ao vê-la, manifestou um sorriso que ela logo abortou. Resolvera cortar aquele romance, que mal começara, pela raiz. Naquele momento não compreendera que foi ele quem não a viu. Após esse dia, muitos anos se passaram. Hoje, com vinte anos, soubera que ele se casou e tem um filho. Cecília continua sem os pés no chão, recuperando-se de um outro amor que nunca lhe dera chances e o qual nem um único beijo trocaram. Cecília vive de sonhos e pequenos romances que custam a dar certo, por isso vive a ceciliar sentimendos e doçuras.


Lu Rosário



Esta publicação pertence ao Prosas Poéticas. Todos os textos publicados em forma de prosa e contada de forma poética se encontram aqui. Sinta-se à vontade para conhecer os outros textos concernentes à esta categoria.


 

Um comentário:

Jade Amorim disse...

às vezes a gente precisa se dar uma chance. Não sair cortando tudo pela raiz. Não, isso não.

Adorei, apesar dos pesares.

Beijos.

Copyright © 2014 | Design e C�digo: Sanyt Design | Tema: Viagem - Blogger | Uso pessoal • voltar ao topo