quarta-feira, 25 de abril de 2012

Aqueles meninos

 Eu sempre seguia aquele trajeto durante as noites de quinta-feira, era algo que me deslocava em sentidos e exatidões. O dia corrido me alertava a hora de partir com um sino imperdoável. Sorria, ajeitava aqui e ali de forma meio malandra e meio suave. Olhava de um lado a outro para ver se esquecia algo e saltava em direção ao adiante. Adiante este que me adiantava todos os afazeres e me enovelava docemente em lençois e fronhas. Mas sim, as noites de quinta-feira não podem ser esquecidas. E após todo um ritual, partia. Dava meia volta e lá estavam eles: meninos homens com seus salgadinhos e línguas afiadas. Engraçado como sentavam a saboreá-lo e como seus olhos se entrecruzavam. Eu tinha medo daquelas palavras trocadas e daquelas bocas sussurrantes. Ora pareciam falar bem e amar-me ou amar-nos (pois eu não estava sozinha) ora mostravam-se irônicos. Em mãos sorridentes, sacudiam-nas em nossa direção como se esta fosse a forma mais cômoda. Naquele paralelepípedo passante, se agrupavam lado a lado sentados como se estivessem fotografando. E bem que daria uma ótima fotografia, mas que nome a daria? Penso que nenhum nome alertaria o perigo que se encontravam naqueles jovens tão bem colocados. Perigo do lirismo, do desassossego, da penumbra, do gotejamento, dos transtornos e da maledicência. Aqueles fulanos, cujos nomes não importa, não aparentavam saber que a vida é muito mais do que sentar-se na beira da calçada e desvendar horizontes. Para eles, tudo não passava de momentos de descontração em noites de quinta. Frente à fábrica de conhecimentos, mal se conheciam. Enrolavam na língua e dominavam o não-verbal. Creio que era nisso que consistia a malandragem e o bom humor. Me impressionavam o companheirismo, o relaxamento, a gestualidade e aquele salgadinho inquieto. E, assim, eram todas as quintas-feiras, dando à minha noite uns momentos de reflexão.


Lu Rosário




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4 comentários:

Maria Luisa Adães disse...

Muito bom o que escreve em prosa-poetica (para mim é prosa-poética)

Lembra-se dos "Capitães da Areia"
de Jorge Amado, (sei que se lembra)
neste momento, eu já não teria coragem de o voltar a ler!

Impressionante...se aproxima dele!

Maria luísa

Jade Amorim disse...

Menina, que texto lindo. Sei lá, tem uma coisa toda íntima, filósofa. Os garotos sentados comendo e observando, ela passando e perguntando se aquilo seria apenas aquilo. rs

Adorei!

Beijos.

Lázara papandrea disse...

uma inquietante e bem construída divagação na sua prosa poética! beijos

Luís Gustavo Brito Dias disse...

- que lindo.
nada como transformar a infância em lirismo.
o resgate do que somos e compartilhamos com o mundo em nossa pequenez é sempre sadio.

parabéns,

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