quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A desilusão linguística amorosa é o novo mal do século

Já não temos mais dúvidas que entre todas as desilusões amorosas, surgiu uma outra que deixa muitos homens e mulheres de queixo caído. A famosa desilusão linguística - ortográfica e gramatical - tornou-se mais latente nos tempos atuais. Nunca convivemos tanto com a escrita do outro. As redes sociais virtuais nos possibilitaram ver o que o outro escreve e estabelecer diálogos por meio das palavras. Sendo assim, qualquer "desvio linguístico", ao ser percebido, passa a ser alvo das mais duras críticas e das mais altas risadas, além de intensificar o preconceito. Em outras palavras, a desilusão linguística amorosa tem frustado muitos homens e mulheres na procura por alguém e se tornado o novo mal do século.

Nem todo mundo estudou em bons colégios ou, até mesmo, deu a devida atenção que o estudo merecia. Nem todos convivem em uma comunidade onde a fala é compreendida como correta. Inclusive, isso é essencial para um bom desempenho linguístico. Sou professora de língua portuguesa e, ao trabalhar na zona rural, ficava claro o quanto o ensino em sala de aula era restrito e o quanto não adiantava dizer que o correto era "nós vamos" em vez de "nós vai" porque quando os alunos voltavam para casa e se encontravam com os amigos, todos falavam "nós vai". Essa influência se dava automaticamente, isto é, eles sabiam que o correto seria "nós vamos", mas a comunicação permanecia a mesma se dissessem "nós vai" e já que era assim que todos se comunicavam, então para quê mudar?

Acontece que as relações vão além e esse vício, que extrapola as prescrições da gramática e que temos previamente estabelecido no dicionário, acaba nos colocando em maus apuros quando ampliamos nosso horizonte de conversação. Apesar de eu ter citado este exemplo, ele não é o único que justifica os assaltos que nosso coração anda tendo. Muita gente sabe e convive com pessoas que utilizam o português considerado correto, no entanto, possuem preguiça e conversam ou escrevem sem preocupações e de uma forma despojada ao seu bel prazer. Eles, realmente, não sabem a repercussão que isso pode ter caso o diálogo seja com alguém mais cricri neste assunto.




Uma outra coisa interessante e que nos leva a pensarmos o quanto podemos ser preconceituosos neste assunto é a intolerância da linguagem quando se trata de um universitário ou de alguém com um diploma acadêmico, enquanto outros podem ser mais rudes nesse sentido e aceitos em relação a isso. Talvez não seja um preconceito pensar assim, mas o fato de saber que o outro teve conhecimento e oportunidade de agir de outra forma, mas não o faz.

Estou falando tudo isso porque essa questão linguística traz grandes reflexos, principalmente nas relações que se querem ir um pouco mais além. Quem preza pela linguagem, sente dificuldades de se envolver com alguém que possua esta precariedade e vice-versa. Esse fator proporciona desilusões que vêm tomando proporções cada vez maiores e faz com que pensemos, inclusive, na impossibilidade de encontrarmos alguém. Essa incompatibilidade linguística ocasiona imensas frustrações que, em nosso imaginário, vão além da linguagem. A gente, em sã impaciência, canaliza um "não sabe falar direito" para um "mal deve saber o que fazer depois de trepar" ou "e eu vou lá querer apresentar pra ninguém" ou sabe-se lá o quê. E, acredito, que seja essa incompatibilidade que gere um pouquinho de preconceito em nós. 

Diante disso tudo, o que podemos fazer? Esse é um caso sério a se pensar. Só digo que não podemos desistir e pregar o quanto é importante nos utilizarmos das ferramentas que a internet e os livros oferecerem para nos tornar melhores e mais sábios na maneira de nos expressarmos. Para tanto, eu chamei Raul e ele nos disse "Tenha fé em Deus. Tenha fé na vida. Tente outra vez!". 


2 comentários:

Pablo disse...

Preconceito linguístico não tá com nada! Azar de quem se prende a coisas assim tão pequenas.

Lu Rosário disse...

E agora veio a hashtag #aletradaspessoas como uma forma de tentar mostrar além da escrita digitalizada..rsrs.

É, ta, é legalzinho..rs.

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